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Cleber Toledo
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Cleber Toledo é jornalista desde 1992, com passagens por jornais em Paraná, São Paulo e Tocantins. Fundador do Portal CT.

Não posso comentar a agressão contra diretor de escola em Araguaína

CLEBER TOLEDO, DA REDAÇÃO 11 de Aug de 2017 - 10h19, atualizado às 11h08
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Foto: Internet

Não me sinto muito à vontade para falar sobre costumes e educação diante deste mundo moderno que aí está. Primeiro porque não sou especialista e, assim, não fui doutrinado a assimilar a contemporaneidade. Depois porque sou vítima de uma educação repressora. Meus pais me disciplinaram, me ensinaram que na vida há regras, que as pessoas precisam ser respeitadas, sobretudo os mais velhos, professores e autoridades. Quando foi necessário, deram umas belas de umas surras em mim e em meus irmãos. As consequências, sob a ótica da sociedade de hoje, foram funestas. Meus irmãos e eu não somos rebeldes, nem andamos fantasiados de bolivarianos, seja na roupa ou no discurso. Pior, diriam os apaixonados pelos ideários deste mundo que nos cerca, nossos pais nos deixaram alienados, porque somos felizes e nunca frequentamos delegacias — vê se pode! —, mesmo forçados a respeitar regras e diante das varadas que tomamos.

Também não tenho nenhuma condição de falar sobre educação para o mundo moderno porque reproduzi o modelo de meus pais em meus filhos. Confesso: fui um repressor. Os meninos foram disciplinados, aprenderam que regras precisam ser obedecidas, que democracia não é ausência de limites e levaram umas tacas quando precisaram. Coitadinhos! Foram obrigados a engolir uma norma escolar absurda diante deste mundo sofisticado e que denuncia minha mentalidade retrógrada: professor tem que ser respeitado, como mestre e autoridade deles.

Admito que dizia a eles que, se soubesse que tinham falado qualquer coisa desrespeitosa a um professor, o castigo seria grande. Tudo bem, me entrego aos órgãos da sociedade moderna que combatem a repressão aos menores, todos vítimas de mentes arcaicas e doentias como a minha. Hoje eles podem tudo e dizer isso aos filhos é crime, imagino, até inafiançável.

Pobrezinhos dos meus filhos. Se tornaram pessoas extremamente respeitadoras e, traumatizados, também não têm o costume de se vestir de bolivariano, tão em moda. Nunca tiveram o prazer de invadir uma escola.

Confesso outro crime, este talvez de calúnia e difamação. Discuti com uma amiga professora e sindicalista no interior de São Paulo, nos longínquos anos 1990, porque ela disse que não gostava de ser chamada de “tia” pelas crianças, já que era uma profissional e não era “tia de ninguém”. Disse-lhe que aquilo era um absurdo. Porque ela e seus colegas que pensavam assim estavam rompendo uma relação afetiva linda com as crianças, que lhes garantiam respeito. Cego no meu pensar totalmente distorcido, disse à amiga que ela estava transformando as crianças em meros consumidores de um produto, a educação. Nos meus delírios de ogro, insisti que consumidor era um ser mimado, que queria tudo em suas mãos e que, se não tivesse, tomaria, ainda que à força. Para a indignação da minha amiga, afirmei que logo os professores estariam até apanhando dos alunos. Afinal, se não era mais a “tia”, não precisaria dos cuidados familiares que esta relação exige. Imagem o absurdo que saiu desta boca cavernosa.

Hoje o consumidor-aluno quer ter o produto educação da forma que deseja. Ele é quem deve decidir o quê e como estudar. Acha que democracia é um vale-tudo, que regras são opressoras e, por isso, não devem existir. Não se sente na obrigação de respeitar quem quer que seja. Ele é que tem que ser respeitado, já que o mundo moderno, que minha mente atrasada não consegue entender, lhe ensinou que só existem direitos e não obrigações.

Com a minha mentalidade de homem das cavernas, fiquei extremamente triste com o episódio da agressão contra um diretor de escola de Araguaína. Passei o dia cabisbaixo, tentando decifrar uma sociedade tão complexa que criaram e que antes era tão simples, a ponto de essas cenas como a que vimos nunca ocorrerem.

Mais sem entender ainda fiquei ao ver emissoras de TV mostrando o diretor como o culpado. Afirmaram que ele revidou, quando, na verdade, apenas imobilizou o agressor, que, mesmo no chão, ainda tentava atingi-lo com os pés. Depois, colocaram profissionais de comportamento, esses seres iluminados que legitimam este mundo que não dou conta de apreender, para dar o veredito irrefutável: o agressor é a vítima. Contra essa decisão “científica” sequer cabe recurso.

Como posso ser tão retrógrado, me apegar tão erroneamente a valores hoje em desuso! Quem sabe um dia consiga mudar minha cabeça e achar que o normal era o diretor, calado, levar uma surra do aluno e ainda pedir desculpas. Será que um dia vou conseguir deixar de pensar que, nesses casos, o que faltou esse moleque foram pais repressores? Gente, começo a me julgar um ser totalmente asqueroso.

CT, Palmas, 11 de julho de 2017.

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